Entendendo os comportamentos compulsivos em profundidade
As compulsões e a impulsividade se relacionam com a busca do prazer imediato e o alívio da angústia. Embora tragam satisfação momentânea, toda compulsão acaba levando a grandes prejuízos, sentimentos de culpa, remorso e perdas pessoais e sociais significativas.
Compulsão é a incapacidade de uma pessoa resistir a agir de acordo com determinado impulso ou pulsão, que pode ser perigosa para si mesma ou para outras pessoas. As compulsões estão classificadas dentro do Transtorno do Controle dos Impulsos, descritas no DSM-IV (Classificação Diagnóstica da Sociedade Norte-Americana de Psiquiatria).
A finalidade de uma compulsão é a obtenção de prazer imediato, fugir de um perigo ou negar que ele existe. Um destes perigos frequentemente relacionado às compulsões é a perda da autoestima e a depressão subjacente.
Compras desmedidas que levam ao endividamento significativo. A pessoa não consegue resistir ao impulso de comprar, mesmo quando sabe que isso trará consequências financeiras negativas.
O indivíduo pode chegar ao ponto de passar mal de tanto comer. A alimentação deixa de ser uma fonte de nutrição e prazer saudável para se tornar uma forma de lidar com emoções difíceis.
Na maioria das vezes envolvem jogos de azar, que levam a dívidas significativas e situações de risco. O ciclo de apostas e perdas pode se tornar devastador para a vida financeira e familiar.
O indivíduo torna esta atividade prioridade máxima, tendo grande dificuldade em se afastar do computador ou console. A vida passa a ter um grande componente virtual, afastando-se da realidade: familiares, amigos e lazer são negligenciados. Estudos, trabalho e horas de sono são sacrificados.
O trabalho ocupa lugar de destaque excessivo na vida do indivíduo, deixando todas as outras atividades de lado: família, lazer e amigos são constantemente preteridos em favor das demandas profissionais.
O caráter de irresistibilidade e repetição. No caso dos impulsos normais, é possível à pessoa resistir, avaliar e escolher. Com as compulsões, isso não ocorre. Os compulsivos atuam ao invés de pensar.
Não toleram tensões, precisam e querem obter satisfação imediatamente, não aceitam recusas.
Os compulsivos interpretam a realidade de maneira equivocada. Fazem com que as pessoas ao seu redor se sintam responsáveis por não estarem dando o que precisam (redução da tensão), mas também se sentem culpados pela forma agressiva com que provocam as pessoas. Acham que estão sendo injustiçados e podem reagir de forma vingativa.
São dependentes de amor e aprovação, de afeição e prestígio, de elogios e reconhecimento. Necessitam destas provisões externas para viver. Reagem com violência às frustrações e recusas, ou reprimem a agressividade por medo de perder amor.
Os comportamentos compulsivos são chamados também de 'Adição sem drogas'. Assim como na dependência química, existe o caráter irresistível do estímulo, o prazer momentâneo e a necessidade de repetição para alcançar novamente este prazer. Com o tempo, desenvolvem-se problemas e consequências graves, com necessidade cada vez maior de repetir o comportamento compulsivo para obtenção de alívio da tensão.
A psicanálise reconhece a importância das figuras parentais nos primeiros anos de desenvolvimento. Pais ausentes, inconstantes ou ambivalentes, situações traumáticas na infância, mudanças constantes de ambiente, ambientes instáveis ou sem amor dificultam o desenvolvimento afetivo da criança.
Quando os pais prometem e não cumprem, dizem uma coisa e depois o contrário, orientam o filho a se comportar de uma maneira mas agem de outra, dão e depois tomam, a criança aprende a 'pegar as coisas' (objetos, pessoas, afetos) antes que elas escapem. Aprendem a atuar e não a pensar.
Freud atribuiu a compulsão à repetição ao conteúdo recalcado inconsciente e também como defesa contra o mesmo. A repetição tem algo a comunicar, e é preciso procurar o que ela está dizendo de forma encoberta. Existe uma tendência a continuar se repetindo até que alguma ruptura provoque o abandono do padrão.
Como os sintomas trazem prazer momentâneo, a psicoterapia é inicialmente entendida pelo compulsivo como uma ameaça à perda deste prazer. Por isso, é necessário verificar se realmente a pessoa está determinada a se tratar.
Se a pessoa sente-se muito mal com tudo o que vem ocorrendo, o prognóstico é positivo e será dado início ao tratamento. Já no caso contrário, em que a pessoa considera seu comportamento natural, aceitável socialmente e não vê motivos para mudar, dificilmente se dará início a um tratamento efetivo.
O trabalho compulsivo merece atenção especial. Muitas vezes, é confundido como dedicação, comprometimento e alta produtividade — características valorizadas socialmente. No entanto, quando o trabalho se torna a única fonte de satisfação e autoestima, ocupando todo o tempo e energia da pessoa, estamos diante de uma compulsão.
O compulsivo por trabalho vive em função dele, deixando de lado família, lazer, amigos e saúde. A ansiedade se torna companheira constante, acompanhada de sensações de pânico, raiva, taquicardia, boca seca, tiques nervosos, problemas digestivos. A sexualidade costuma ser afetada por disfunções diversas.
O estresse provocado pela intensidade de trabalho, pela competitividade extrema na busca de ascensão, poder e ganho material, leva o organismo a um estado de tensão permanente, resultando em alterações fisiológicas e patológicas. Existe aumento dos riscos cardiovasculares, podendo desenvolver hipertensão arterial, enfarte, angina e até morte súbita.
A recuperação envolve o resgate de aspectos deixados de lado, uma nova visão da vida com outras possibilidades, recuperação da autoestima não baseada unicamente no trabalho, mas em outros tantos aspectos da personalidade e potencialidades. É poder ser e fazer diferente.
É importante distinguir entre pessoas que são mais ativas sexualmente e gostam muito de sexo, daquelas que apresentam comportamento sexual patológico. No primeiro caso, o sexo traz prazer, satisfaz e elimina a tensão sexual de forma saudável.
Já quando falamos de sexo patológico, tratamos de um prazer e satisfação que nunca são suficientes, nunca trazem o alívio desejado, sendo preciso buscar sempre mais. A sexualidade não toma um caminho natural — a pessoa pode vir a sexualizar tudo. Estas pessoas estão privadas de uma satisfação verdadeira e buscam atividade sexual intensa.
Costumam contar quantas relações sexuais tiveram, quantas pessoas conseguiram seduzir. Acabam por cair na promiscuidade, correndo o risco de doenças sexualmente transmissíveis e outros tantos riscos.
Os hipersexuais não conseguem obter a satisfação procurada e repetem atos sexuais ou sexualizados na busca do prazer e do alívio da ansiedade. Este estado de insatisfação sexual provoca inquietação constante, ansiedade e dificuldades no trabalho e nas relações familiares.
A psicanálise entende a atividade sexual exagerada como uma adição. Nas adições sexuais, a sexualidade perde sua função específica e passa a ser uma defesa, uma proteção contra estímulos intensos. O parceiro sexual passa a ser o mesmo que a droga é na dependência química. Uma necessidade que faz parte do material recalcado rejeitado na infância, daí a necessidade de repetição.
Diversos transtornos estão associados aos problemas de controle dos impulsos:
A pessoa demonstra muita agressividade, com episódios de agressão contra outras pessoas, podendo ferir ou causar lesões. O tratamento envolve psicoterapia, uso de medicações, apoio familiar (Terapia Familiar) e estabelecimento de limites claros.
É o roubo com finalidade de obter proteção e perdão, chamando atenção sobre si através de uma transgressão. Muitas vezes, são roubos de coisas inúteis que vão sendo colecionadas. O tratamento envolve psicoterapia para entender motivações, culpas e necessidade de punição, terapia comportamental para controle dos impulsos, e medicamentos para controle da depressão associada.
Impulsão intensa para atear fogo. O indivíduo manifesta fascínio pelo fogo e suas consequências. A compulsão serve para expressar angústia, raiva e agressividade de forma destrutiva. Requer acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico intensivo.
Compulsão para arrancar os próprios cabelos, podendo chegar a áreas de calvície. Normalmente está associada a estados de ansiedade e angústia, e o ato de arrancar os cabelos proporciona alívio temporário da tensão. O tratamento envolve psicoterapia e medicação ansiolítica.
As compulsões e a impulsividade são transtornos sérios que afetam profundamente a qualidade de vida da pessoa e de seus familiares. O reconhecimento do problema e a busca por tratamento adequado são passos fundamentais para a recuperação. Com acompanhamento profissional apropriado, é possível desenvolver formas mais saudáveis de lidar com as emoções e conquistar uma vida mais equilibrada e satisfatória.
Se você ou alguém que você conhece está enfrentando problemas com compulsões ou impulsividade, entre em contato para agendar uma consulta. Estou aqui para ajudar no seu processo de recuperação.
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